Page 42 - Edição 77
P. 42
|41|
iros, turistas e traficantes de confirmadas e muitas outras segurança pública do estado.
drogas. sendo investigadas. Comuni- As entidades permane-
Em agosto de 2020, dades inteiras foram submeti- cerão apoiando as comunida-
Saulo Moysés Rezende da Cos- das a todo tipo de ameaças. des até que o processo de inves-
ta, secretário-executivo do Sob o comando direto tigação seja concluído, os cul-
Fundo de Promoção Social do do secretário de Segurança pados responsabilizados, e a
Governo do Amazonas, parti- Pública e do comandante geral paz reestabelecida. Entretanto,
cipava de uma pescaria ilegal da PM, foi interrompido todo o há uma sobrecarga nesse perío-
em meio à crise de saúde públi- fluxo de pessoas no rio. Quem do de pandemia. Estão todos
ca que assola o estado, quando se arriscava a navegar sofria exaustos em virtude da grande
supostamente foi baleado no violência. É o caso de uma demanda de trabalho. Há difi-
ombro e jurou vingança. mulher e três crianças feridas a culdades de contato com as
Pouco dias depois, a bala dentro do barco em que comunidades isoladas.
mesma lancha usada pelo navegavam. O descontrole total da
secretário circulou na região Indígenas e ribeirinhos pandemia no estado do Amazo-
com policiais militares arma- foram impedidos de saírem de nas já interrompeu precoce-
dos e sem uniforme, desenca- suas comunidades e aldeias, mente mais de 10.000 vidas,
deando uma onda de torturas e proibidos de pescar e entrar na inclusive companheiros que
mortes na região. Ao desem- mata para acessar suas roças. A atuaram diretamente no caso
barcar na comunidade Terra fome se instalou. Um prato de do rio Abacaxis. Edina e Ros-
Preta de Borba, os policiais comida era dividido entre três ha, ambos do CIMI, faleceram
foram emboscados por trafi- pessoas como única refeição ainda no ano passado.
cantes. Dois foram mortos e do dia. Corpos em estado de Nesse sentido, todo o
dois, feridos. decomposição foram encontra- apoio será muito bem-vindo. É
O governador ordenou dos boiando no rio Abacaxis, preciso dar visibilidade ao
a ocupação da região. Mais de única fonte de água dos mora- caso, garantir comunicação e
50 policiais se deslocaram para dores da região. assegurar a alimentação às
lá. Sem conhecer a região, Essa situação só foi comunidades do rio Abacaxis
alguns se perderam no labirinto amenizada no dia em que enti- que sofrem todo tipo de carên-
fluvial e acabaram entrando de dades do movimento popular e cia nesta segunda onda da
lancha por um igarapé que dá o Ministério Público Federal Covid-19.
acesso a terra indígena Coatá- quebraram o cerco de violência É urgente também
Laranjal, do povo Munduruku. e conseguiram introduzir algu- melhorar a comunicação entre
Ali, abordaram e assas- mas cestas de alimentos e água as comunidades locais (atual-
sinaram Josimar e Josivan nas comunidades. mente não há energia elétrica e
Moraes Lopes, dois jovens Entidades da sociedade nem rede de internet); instalar
irmãos Munduruku que viviam civil (entre elas CIMI, CPT, sistema de captação e armaze-
distantes dezenas de quilôme- SARES, FANDDI, Arquidio- namento de águas; e infraestru-
tros do local do primeiro con- cese de Manaus, CNS, Cacuí e tura de transporte, sobretudo
flito. CRB) se movimentaram para considerando a necessidade de
Era apenas o início do acompanhar os fatos, buscando deslocamento rápido de pesso-
terror que predominou na garantir a segurança das comu- as infectadas pelo vírus.
região. Torturas generalizadas nidades, responsabilizar os
e execuções sumárias tomaram agressores e promover mudan-
conta do rio, com sete mortes ças estruturais no sistema de

