Page 173 - Abolição_24.10.2017
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outros atores, desenvolver protocolos que pudessem ser cumpridos sem falhas. Grande parte da
história da pena capital pode ser entendida nestes termos. Pensemos, por exemplo, na mudança
dos critérios de acesso público às execuções. Em determinado momento do século xix, as vanta-
gens das execuções públicas foram suplantadas pelos problemas relacionados com o público e as
autoridades estatais começaram a colocar os patíbulos entre os muros das prisões (as execuções
públicas foram abolidas pela primeira vez nos estados do nordeste dos Estados Unidos – várias
décadas antes de o Reino Unido e os Países Baixos seguirem o seu exemplo e um século antes
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de a França as eliminar) .
Este processo destinado a tornar a execução mais «privada», bem como a reduzir a sua
visibilidade e a dimensão do envolvimento do público, não deve ser entendido como sendo o
resultado de sensibilidades mais sofisticadas ou uma reação a multidões urbanas desobedien-
tes, embora estes dois aspetos tenham desempenhado o seu papel neste contexto. A principal
justificação residia no esforço contínuo dos responsáveis governamentais para exercer um con-
trolo cada vez mais apertado de um ato problemático e para gerir os significados que o mesmo
transmitia ao público. Do século xvii em diante, os responsáveis propuseram sucessivamente
a redução da dimensão do ritual, do tamanho da audiência, do papel performativo do conde-
nado, do tempo necessário para morrer e das oportunidades para ver a execução e para falar
sobre o que fora visto. A preocupação das entidades oficiais de evitar rituais públicos falhados
levaria ao fim quer do ritual, quer da publicidade . Este processo mantém-se hoje em países tão
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the execution could undermine it. An execution’s meaning was inherently unstable, always
vulnerable to resistance and re-appropriation.
State officials have always been motivated to increase their control over these difficult
events – to minimize opportunities for disruption, to limit the impact of other actors, to
develop protocols that can be carried through without fail. And a large part of capital punish-
ment history can be understood in these terms. Consider, for example, the changing pattern
of public access to executions. At a certain point in the 19 century, the benefits of public
th
executions came to be outweighed by their attendant costs, and state authorities began to
move scaffolds behind prison walls. (Public executions were first abolished in the northeastern
states of America – several decades before the UK and the Netherlands followed suit, and a
whole century before France gave them up).
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This process of “privatizing” the execution, of reducing its visibility and the extent of
public involvement is best understood not as a result of more refined sensibilities, or a reac-
tion to unruly urban crowds, though both of these played a role. It is best viewed as the ongo-
ing effort of government officials to exert ever-tighter control over a fraught undertaking and
to manage the meanings that it put into circulation. Time after time from the 17 century
th
onwards, officials moved to reduce the extent of the ritual, the size of its audience, the per-
formative role of the condemned, the time taken to die, and the opportunities for viewing and
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