Page 181 - Abolição_24.10.2017
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lação, estigmatização, flagelação e chicoteamento eram utilizados de forma menos generali-
                           zada. As punições que implicavam exposição ou sofrimento físico – os cepos, os pelourinhos,
                           a flagelação, os açoites e a estigmatização – foram, em grande medida, abandonadas. A pena
                           de morte tornou-se menos frequente e menos violenta, de forma que, a partir do século xviii,
                           as práticas de execução que desfiguravam, desmembravam ou exibiam o corpo do condenado
                           se tornaram muito menos comuns e o sofrimento do condenado no patíbulo diminuiu bas-
                           tante. Em meados do século xix, muito tempo depois de as torturas nos patíbulos terem sido
                           abolidas, comentadores da classe média queixavam-se de que a visão de uma execução era
                           demasiado perturbadora e criticavam a vulgaridade insensível de quem continuava a assistir
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                           aos enforcamentos públicos .
                               A partir do final do século xviii, as elites ocidentais condenavam as execuções públicas
                           em nome da civilização, criticando as autoridades estatais por encenarem tais espetáculos
                           «bárbaros» e criarem oportunidades para condutas desprezíveis e «grosseiras». Em meados do
                           século xix, uma prática outrora apoiada por grupos dominantes em toda a parte era agora cri-
                           ticada por estes .
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                               No entanto, embora a estética civilizada de aperfeiçoamento tenha ajudado a formar a
                           sensibilidade do movimento de combate à pena de morte, não foi a sua única base cultural. Uma
                           vertente igualmente importante na constituição do movimento foi sempre o humanitarismo:
                           uma sensibilidade moral – e muitas vezes religiosa – que encara a vida humana como sagrada,







                           suffering – the stocks, the pillory, flogging, birching and branding – were mostly abandoned.
                           The death penalty grew less frequent and less violent so that from the 18  century onwards,
                                                                                     th
                           execution practices that disfigured, dismembered or displayed the condemned’s body became
                           much less common and the suffering of the condemned on the scaffold was greatly reduced.
                                             th
                           By the middle of the 19  century, long after scaffold tortures had been abolished, middle class
                           commentators complained that the sight of a person being put to death was too disturbing to
                           watch and criticized the callous vulgarity of those who continued to attend public hangings.
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                               From the late 18  century onwards, Western elites denounced public executions in the
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                           name of civilization, criticizing state officials for staging such “barbaric” displays and provid-
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                           ing occasions for “vulgar” despicable conduct. By the mid 19  century, a practice once sup-
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                           ported by ruling groups everywhere was now being criticized by them.
                               But if a civilized aesthetic of refinement helped form the sensibility of the anti-gallows
                           movement, it was not its only cultural foundation. An equally important strand in the move-
                           ment’s make-up has always been humanitarianism: a moral – and often religious – sensibility
                           that regards human life as sacred, presses for an end to cruelty, and aims to extend compassion
                           to all fellow creatures. This sensibility has been a constant theme of penal reformers: from
                           Beccaria and his “cause of humanity” in the 18  century, to Norval Morris and his “decency,
                                                                th
                           empathy” and concern for “human suffering” in the 20 .
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