Page 26 - Abolição_24.10.2017
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humanidade. Esses momentos de ameaça só são irreversíveis se, ao perigo, juntarmos ainda o
medo; se à incerteza adicionarmos a timidez pusilânime; e se à ameaça somarmos a cobardia.
Se a tudo isto acrescentarmos a indiferença e a resignação, a passividade e a desistência, a irres-
ponsabilidade e o fatalismo – ou o populismo, o primarismo, a demagogia e o oportunismo –,
então temos a receita para o desastre.
Se, pelo contrário, formos capazes, nas horas difíceis, de responder com coragem e sereni-
dade, com valentia e ousadia, com responsabilidade e convicção, saberemos transformar uma
hora má num tempo de confirmação do melhor que há em nós. Saberemos, então, estar à
altura dos mais altos sonhos humanos. Saberemos que as utopias de hoje podem ser as reali-
dades de amanhã.
A coragem e a força de dizer sim ao humano e de dizer não ao desumano e ao intolerável
fizeram a história – até a nossa história mais recente: de um lado, os que abdicaram e se sub-
meteram (Chamberlain, Daladier, Pétain); do outro, os que resistiram, combateram e venceram
(De Gaulle, Churchill e Roosevelt).
É nos momentos de crise que precisamos dos grandes valores que inspiram as gran-
des decisões, as grandes mudanças, os grandes avanços. A abolição da pena de morte foi um
momento em que Portugal se encontrou com o melhor da sua tradição humanista e antecipou
aquilo com que depois a Europa resistiu à barbárie.
Como aconteceu com aqueles que se opunham à abolição da pena de morte, os argumen-
tos contra o progresso humano têm sempre as negras cores anunciadoras da catástrofe e do
cowardice. If we add indifference and resignation, passiveness and abandonment, irresponsi-
bility and fatalism – or populism, primacy, demagogy and opportunism – then we have a recipe
for disaster.
If, on the other hand, we are able to respond in difficult times with courage and serenity,
braveness and boldness, responsibility and conviction, we will be able to turn a bad moment
into a time for reaffirming the best we have. We will thus be able to achieve the greatest human
dreams. We will know that today’s utopias can be tomorrow’s realities.
The courage and force of saying yes to the humane and no to the inhumane and intoler-
able have formed history, even our most recent history. On the one hand, those who abdicated
and abided (Chamberlain, Deladier, Pétain); on the other, those who resisted, fought and over-
came (De Gaulle, Churchill, Roosevelt).
It is at times of crisis that we need great values that inspire great decisions, great changes,
great advances. The abolishment of the death penalty was the moment when Portugal met
with the best of its humanist tradition and anticipated something that Europe would later use
to resist barbarism.
As with those who opposed abolition of the death penalty, arguments against human
progress always turn to a darkness that foretells of catastrophe and the fear it causes. In the
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