Page 157 - Abolição_24.10.2017
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Basta esquadrinhar um pouco da alma humana para encontrar sempre, mesmo nas men-
                           tes mais empedernidas, uma réstia de humanidade que merece, por isso mesmo, ser salva e
                           pode salvar quem cometeu os mais hediondos crimes.
                               Participei uma vez num julgamento de um pistoleiro que matara friamente, por ordem
                           superior, um outro criminoso: tratou-se, parecia claro, de um ajuste de contas entre bandi-
                           dos.
                               O caso passou-se de dia, no centro de Cascais e, alegadamente, o homicida e a vítima
                           pertenciam à Ndragueta, uma associação mafiosa que subsiste, ainda hoje, no sul da Itália.
                               De que o condenado participara no plano que conduziu ao homicídio, nunca duvidei.
                           Que ele tenha sido quem, efetivamente, premiu o gatilho, foi uma tese que então defendi con-
                           victamente, mas é uma questão que depois passou a atormentar-me.
                               Todas as provas apontavam no sentido de que o acusado e depois condenado fora o autor
                           real do homicídio e isso fez-me pensar, já depois – até pela atitude silenciosa e quase apática
                           do réu e do seu defensor durante o julgamento – se ele não fora lançado à sorte pelos quadros
                           dirigentes da organização para assumir a responsabilidade daquela ação criminosa.
                               A única resposta que deu durante o julgamento foi a de que não tinha sido ele o autor do
                           disparo; e mais não disse.
                               O modo do réu era impassível e conformado, o do defensor, que lhe contrataram, inexpli-
                           cavelmente desinteressado.





                               Nevertheless,  I  have  taken  part  in  many  court  trials  for  murder  crimes  of  varying
                           severity. Most of these murders resulted from rash decisions which only reveal, most often,
                           the brutality of the lives of those who committed these crimes or their victims.
                               Others, however, resulted from cold and well thought-out decisions which came from
                           the hands of those who saw crime as a normal and organised activity.
                               Sometimes, even in these cases, we might find painful realities, interrupted lives or
                           absurd but almost moral loyalties behind many of those brutal acts.
                               But the problem – regarding crime – is different: such murders and those who have
                           committed them demonstrate a neutral attitude towards the values of life and community.
                               Supporters of the death penalty shall say that these criminals did not deserve to live.
                               One does not need to read Dostoievsky to know that this is not so.
                               It is enough to scrutinise a bit of the human soul to always find, even in the most
                           ossified of minds, a ray of humanity that deserves to be saved and may save those who have
                           committed the most heinous crimes.
                               I once took part in the trial of a gunman who, following orders, had killed another
                           criminal in cold blood. It seemed clear that it had been a settling of scores between
                           bandits.







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